O Brasil atraiu R$ 12 bilhões em investimentos para combustível sustentável de aviação, o SAF, colocando-se numa posição que o avô econômico nunca imaginou: fornecedor global de solução climática. A razão é simples. Aviação representa cerca de 2,5% das emissões globais de carbono, e regulações europeias obrigam companhias aéreas a misturar SAF ao combustível convencional. O Brasil, com sua vocação agrícola e capacidade produtiva, está posicionado perfeitamente para lucrar com essa transição.
Mas há um detalhe perturbador. Estudos do INPE mostram que 25% do território brasileiro sofre ameaça de desertificação, especialmente no Nordeste. Enquanto o país vira fornecedor de energia limpa para o mundo, sua base territorial envelhece, piora. Há tensão invisível: quanto mais o Brasil planta cana ou outro insumo para biocombustível, mais pressiona um solo já fragilizado. E quanto menos cuida da integridade climática interna, mais frágil fica sua promessa de fornecer combustível "sustentável" ao mundo.
O resultado é paradoxal. O Brasil ganhou poder geopolítico via transição energética, mas perdeu segurança interna. Sua força viraliza exatamente enquanto sua base se degrada. Isso não é visível nas manchetes, mas é o tipo de fragilidade que desaparece em anos, não em décadas. O que monitorar: se governo brasileiro consegue capturar valor desse investimento estrangeiro sem sacrificar a restauração ambiental ou se, ao contrário, a pressa por lucro a curto prazo resulta em degradação a longo prazo que anula a vantagem estratégica.
