A China realizou os maiores exercícios navais próximos a Taiwan em uma década. Foram manobras coordenadas com múltiplos tipos de navios, submarinos e aviões. O tamanho e a sofisticação indicam que não era demonstração simbólica: era ensaio operacional. Exercícios militares servem a dois propósitos simultaneamente. Para o lado que executa, é oportunidade de testar protocolos, identificar deficiências, treinar pessoal sob condições próximas ao real. Para o outro lado, é mensagem clara: estamos prontos.
O Estreito de Taiwan não é apenas um espaço geográfico. É o gargalo por onde passa um terço do comércio marítimo global. Se a rota fechar, navios que levam chips de Taiwan para América do Norte, óleo para Europa, componentes para Brasil serão desviados por rotas muito mais longas. Os preços de fretes sobem. Os prazos esticam. As cadeias de suprimento que já estão frágeis pós-pandemia desabam. Uma guerra em Taiwan paralisaria o comércio mundial em semanas. Todo poder político sabe disso. Quando a China faz exercícios ali, não está apenas testando militarmente: está testando quanto os EUA e seus aliados estão dispostos a sofrer.
O exercício também funciona como medida de reação adversária. Pequim quer saber se Washington responde militarmente, se há integração com Japão e Coreia do Sul, se há hesitação europeia. Os EUA têm tropas perto de Taiwan e compromissos de defesa que nunca foram formalizados completamente. Há ambiguidade por desenho: mantém China incerta. Mas incerteza demais gera risco de erro de cálculo. Se China acha que EUA não responderá, toma Taiwan. Se EUA acha que China não tentará, nega recursos à defesa. Exercícios militares servem para reduzir essa incerteza ou aumentá-la. O que acompanhar nos próximos meses é se Washington faz contra-exercícios equivalentes ou se mantém a dissuasão (dissuasão é a tática de manter o adversário incerto o suficiente para frear).
