Uma cúpula da OTAN (a aliança militar que reúne EUA, Europa e Canadá) marcada para o próximo mês em Ancara tenta projetar unidade sobre rachaduras cada vez mais visíveis. No mesmo momento, a guerra na Ucrânia prova que drones podem ameaçar infraestrutura russa a 2.000 quilômetros de distância. A ordem militar construída após a Guerra Fria enfrenta pressões em todas as frentes, de Tóquio a Tel Aviv.
OTAN entre crises e cúpulas
Diplomatas turcos e americanos se reúnem nesta segunda-feira, 22 de junho, para preparar a cúpula da OTAN que ocorrerá em Ancara em julho. O encontro acontece sob a sombra do que a revista Foreign Affairs descreveu como uma "crise permanente" dentro da aliança militar ocidental. Apesar das tensões internas, analistas ouvidos pela publicação avaliam que o bloco não deve se romper.
A atual divisão da OTAN reflete divergências profundas entre os membros sobre gastos militares, dependência energética e o nível de apoio a Kiev na guerra contra a Rússia. O governo do presidente americano Donald Trump pressionou sistematicamente os países europeus a investir mais em defesa. Essa cobrança gerou atrito com líderes como o chanceler alemão Friedrich Merz e o presidente francês Emmanuel Macron, que preferem maior autonomia europeia.
A cúpula de Ancara será o teste mais recente da capacidade da aliança de manter a aparência de coesão. O evento também serve para ancorar sua posição estratégica, já que o presidente Recep Tayyip Erdogan atua como intermediário em negociações entre Rússia e Ucrânia. As decisões tomadas na capital turca vão definir o orçamento militar europeu para a próxima década.
O alcance crescente da guerra na Ucrânia
Um ataque aéreo ucraniano atingiu uma refinaria de petróleo em Tiumen, na Sibéria, a 2.000 quilômetros de distância da fronteira da Ucrânia. Segundo o monitoramento de campo do projeto War Translated, drones explosivos causaram danos às instalações no coração energético russo. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky confirmou operações ofensivas durante a noite, incluindo ataques à logística militar e à defesa antiaérea russa.
O ataque demonstra que o conflito deixou de ser uma guerra de trincheiras confinada ao leste europeu. O uso de drones de longo alcance funciona como uma ferramenta de guerra assimétrica, uma estratégia em que o lado mais fraco usa táticas inteligentes para causar danos proporcionais ao inimigo mais forte. O objetivo prático é reduzir a capacidade russa de abastecer suas tropas no front com combustível.
A destruição de infraestrutura energética no interior da Rússia afeta a receita de exportação de Moscou e encarece a manutenção do esforço de guerra. Atacar instalações a 2.000 quilômetros de distância provoca uma pressão psicológica inédita sobre o comando militar russo e a população civil siberiana. A capacidade de Kiev de sustentar essa cadência de ataques de profundidade vai ditar o ritmo das negociações de paz futuras.
Ofensiva israelense além do campo de batalha
Forças israelenses eliminaram dois operadores ligados ao Hamas e à Jihad Islâmica, segundo a agência de notícias Reuters. Os alvos faziam parte de uma rede internacional de financiamento militar que sustentava operações contra o Estado de Israel. O ataque ocorre no contexto de uma ofensiva mais ampla do governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
O governo israelense ampliou o conceito de segurança nacional para incluir a perseguição a fontes de dinheiro de organizações armadas fora das fronteiras tradicionais. Cortar o fluxo de recursos inimigos é como secar a fonte de água de uma planta para impedir seu crescimento. Analistas do Washington Institute avaliam que a expansão territorial contínua de Israel no Oriente Médio tem um custo alto e arrasta os Estados Unidos para o centro do conflito regional.
A perseguição a financiadores do Hamas ocorre enquanto Israel consolida o controle de novos territórios nos planaltos sírios e em Gaza. Esse movimento expansionista gera atrito constante com a Casa Branca, que precisa equilibrar o apoio histórico a Tel Aviv com a necessidade de evitar um confronto direto com o Irã. O ritmo da ofensiva israelense e a reação americana vão determinar a estabilidade geopolítica do Oriente Médio.
Japão estrutura uma indústria de defesa
O governo japonês estuda a criação de um novo órgão oficial para gerenciar exportações de armamentos, segundo reportagem do site The Diplomat. O sistema vai copiar o modelo americano de vendas militares externas e permitir que empresas de Tóquio comercializem tecnologia bélica com países aliados. A medida representa uma ruptura com décadas de política externa pacifista.
O Japão enfrenta um ambiente de segurança cada vez mais hostil na Ásia, com o crescimento do poderio militar chinês e os testes de mísseis da Coreia do Norte. O país tem uma das maiores bases industriais do mundo, mas leis constitucionais rígidas impediam a venda de armas no exterior desde 1945. Criar uma agência de exportação militar transforma essa capacidade produtiva em moeda de poder diplomático.
Tóquio quer competir com Pequim por influência no Sudeste Asiático e no Pacífico ofereendo submarinos, radares e caças a preços competitivos. A entrada do Japão no mercado global de armamentos vai alterar a balança de poder militar na Ásia. O sucesso desse novo órgão governamental vai depender da velocidade com que a indústria local consegue fechar contratos com nações como Filipinas e Indonésia.
Síntese
A reordenação do poder militar global é o movimento subjacente que conecta os eventos desta semana. As instituições e os limites territoriais criados após a Guerra Fria perdem a validade diante de novas tecnologias e ambições geopolíticas. O mundo atravessa uma transição para uma ordem multifacetada onde a força volta a ser a principal moeda de troca diplomática.
A cúpula da OTAN em Ancara reflete o desgaste da velha aliança ocidental diante de pressões internas e externas insustentáveis. O ataque ucraniano a uma refinaria na Sibéria mostra que a distância geográfica deixou de ser uma barreira de proteção válida, com drones baratos destruindo ativos bilionários. A ofensiva israelense contra financiadores árabes e a militarização da indústria japonesa indicam que países médios não esperam mais pela proteção americana para garantir sua própria sobrevivência. Cada um desses eventos é um sintoma da mesma transformação estrutural.
A consequência de médio prazo é a proliferação de conflitos regionais armados sem um árbitro global reconhecido. Se esse padrão de rearmamento e desafio às fronteiras se consolidar, a próxima década será marcada por corridas armamentistas e choques militares constantes. A cúpula de Ancara no próximo mês oferecerá o primeiro termômetro oficial da capacidade do Ocidente de se adaptar a essa nova realidade.
Fontes
- 📺Tune in on Monday, June 22 at 10AM ET for an expert conversation with Turkish Deputy FM @LGUMRUKCU, U.S. Amb.@Julie_C_Smith, and @SonerCaga · Washington Institute [think tank]
- 📺Join us on Monday, June 22 at 12AM ET for an expert conversation with Turkish Deputy FM @LGUMRUKCU, U.S. Amb.@Julie_C_Smith, and @SonerCaga · Washington Institute [think tank]
- How do the U.S., Israel, and the Gulf states think AI can advance their strategic positions? “Decision Points” host @DavidMakovsky speaks wi · Washington Institute [think tank]
- The government is considering establishing a new organization to manage a Japanese-style Foreign Military Sales system and promote defense e · The Diplomat [imprensa]
- Pakistan’s ambitions to become a major defense exporter and an influential player in Africa suffered a significant setback in April - thanks · The Diplomat [imprensa]
- Read Florence Gaub and Jonathan Heist on the sources of tension fueling NATO’s crisis—and why the alliance is likely to survive: · Foreign Affairs [imprensa]
- “The war’s initial aim—to deliver a death blow to the Islamic Republic—has proved unattainable,” write Narges Bajoghli and @vali_nasr. “Rath · Foreign Affairs [imprensa]
- Anti-Israel sentiment has become a ubiquitous feature of contemporary U.S. politics. https://t.co/KnC6SeYtNx · Foreign Policy [imprensa]
- Reports of a drone strike on the oil refinery in Tyumen right now, some 2,000 km from Ukraine. https://t.co/TUWWlGeVMU · War Translated [monitor conflitos]
- Zelensky confirms overnight strikes on Crimea, hitting military logistics, the oil sector and air defense on both sides of the Kerch bridge, · War Translated [monitor conflitos]
- Ukraine's Foreign Minister Sybiha says Ukraine never wanted this escalation with Poland but will now mirror every unfriendly move. "Nawrocki · War Translated [monitor conflitos]
- Israel says it 'eliminated' two Hamas and Islamic Jihad operatives tied to major funding network https://t.co/W5a0tl6qEn https://t.co/W5a0tl · Reuters [agência]
- Stop ‘Greater Israel’ to make peace · Al Jazeera English
- https://t.co/AX3K8pSa62 · Barry Eichengreen [economista]
- https://t.co/LDpfEjFJSn · Barry Eichengreen [economista]