Enquanto a OTAN (aliança militar que reúne EUA, Europa e Canadá) concorda em modernizar seu arsenal nuclear, o Brasil observa o cenário internacional se fragmentar entre conflitos ativos e reordenamentos diplomáticos. Governos estão recalibrando suas fontes de poder e segurança em um tabuleiro global cada vez mais instável.
O ataque que fortaleceu o inimigo
O presidente americano, Donald Trump, assinou nesta semana um memorando de entendimento com o Irã após meses de escalada militar. O acordo conjuga esforços de Washington e Jerusalém, mas o ataque conjunto de Estados Unidos e Israel a alvos iranianos produziu o efeito oposto ao planejado: em vez de enfraquecer o regime de Teerã, a ofensiva fortaleceu a ala mais radical do poder local. O documento agora exige o fim de todas as guerras no Oriente Médio e coloca os EUA na desconfortável posição de ter que domesticar aliados e inimigos ao mesmo tempo. A revista Foreign Affairs publicou uma análise do pesquisador Alex Citrinowicz que sintetiza o problema: a ofensiva militar sufocou uma transformação interna em curso no Irã e não fraturou o sistema, mas reforçou a posição de seus líderes mais linha-dura.
A lógica é conhecida de quem estuda conflitos. Quando uma nação é atacada por uma potência estrangeira, a população costuma se unir em torno de seus governantes, mesmo os impopulares. A ofensiva militar funcionou como um oxigênio para a facção mais extremista do governo iraniano. Líderes moderados que defendiam uma aproximação com o Ocidente perderam força política interna. A pressão externa abortou uma mudança de regime que ocorreria por dentro. O regime agora busca consolidar esse ganho impulsionando demandas diplomáticas mais amplas por toda a região. O primeiro ponto do memorando assinado por Trump exige o fim de todas as guerras no Oriente Médio, inclusive no Líbano, onde Israel combate o Hezbollah, braço armado iraniano.
O resultado é um pesadelo diplomático para os Estados Unidos. O governo Trump quer o memorando assinado a qualquer custo para vender uma vitória eleitoral. Isso significa que Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, provavelmente sofrerá uma pressão sem precedentes de Washington para abandonar o sul do Líbeno. A própria retórica do presidente americano já aponta nesse sentido: Trump afirmou que os integrantes do Hamas, grupo palestino que controla Gaza, "estão se comportando bem". A mudança brusca de tom revela a urgência em fechar acordos. A tensão permanente no Golfo Pérsico, entretanto, permanece sem resposta clara.
O retorno das bombas atômicas
A OTAN anunciou na última terça-feira a decisão de modernizar suas capacidades nucleares. A informação foi confirmada pela agência Reuters. A atualização das ogivas e dos mísseis representa uma resposta direta à escalada de ameaças estratégicas da Rússia e marca uma inflexão na postura de dissuasão do bloco ocidental. Dissuasão é a estratégia de impedir ataques pelo medo de uma retaliação devastadora. É o equivalente a travar uma porta e deixar uma arma à vista: ninguém entra porque sabe que a reação será letal.
A Rússia invadiu a Ucrânia e, desde então, ameaça rotineiramente usar armas nucleares contra países europeus. As antigas bombas da aliança ocidental, em grande parte herança da Guerra Fria, já não causavam o mesmo receio em Moscou. O presidente russo, Vladimir Putin, apostava que o Ocidente não teria estômago para uma confrontação militar de alto custo. A modernização do arsenal muda essa equação. A aliança militar liderada pelos EUA está enviando um recado claro de que sua capacidade de destruição está ativa, atualizada e pronta para uso.
A consequência prática é o fim do desarmamento como horizonte global. Durante três décadas, as potências reduziram seus estoques nucleares. Esse movimento acabou. A Europa volta a ser um continente dividido por armas atômicas de ambos os lados. O presidente da França, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Friedrich Merz, já haviam sinalizado a necessidade de uma defesa europeia mais robusta, e a decisão da OTAN coroa essa preocupação. O que se monitora agora é a reação do Kremlin, que pode responder com novos testes de mísseis e deposição de ogivas em países vizinhos.
Defesa sem liderança
Os países do G7 (grupo das sete maiores economias avançadas) anunciaram um compromisso de fornecer mais sistemas de defesa aérea à Ucrânia. A declaração conjunta destaca os sucessos do exército ucraniano no campo de batalha e sugere um novo momento na guerra contra a Rússia. Em paralelo à ajuda militar, o Estado-Maior ucraniano confirmou o ataque a um petroleiro russo no Mar Negro. O navio faz parte da chamada "frota sombra", embarcações usadas por Moscou para burlar sanções ocidentais e vender petróleo.
A explicação para esse cenário está na divisão do trabalho diplomático. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, vem pedindo por mais armas antiaéreas de forma incansável. Os países europeus cumprem essa agenda e fornecem os armamentos para que a Ucrânia continue lutando. A figura do presidente americano, no entanto, funciona como uma variável imprevisível nesse apoio contínuo. Trump evitou responder a uma pergunta direta de um jornalista sobre se Putin é o culpado pela guerra em curso. A omissão é um desvio da política externa tradicional e enfraquece o poder de barganha de Kiev.
O apoio militar ganha contornos de incerteza política. Se o fornecimento de mísseis antiaéreos depende da coordenação do G7, a vontade política para manter a pressão sobre Moscou depende da Casa Branca. A ambiguidade de Trump sobre a responsabilidade de Putin cria um vácuo de liderança no Ocidente. A Ucrânia recebe armas para se defender, mas perde a garantia de que o líder da maior potência mundial está do seu lado na disputa diplomática. O que acompanhar é o desencontro entre o fornecimento de armas e a falta de pressão política real sobre o Kremlin.
A busca por um novo protetor
O líder do governo militar de Mianmar iniciou uma visita de cinco dias à China. É a primeira viagem internacional de Min Aung Hlaing ao país desde que ele assumiu formalmente a presidência, em abril. A visita revela a estratégia de consolidar o apoio de Pequim como principal patrocinador externo do regime. O ditador busca no gigante asiático a sobrevida política que o isolamento ocidental e as sanções econômicas lhe negam.
O governo de Mianmar enfrenta uma guerra civil sangrenta desde o golpe militar de 2021. Grupos armados de oposição controlam grandes extensões territoriais e o exército perde terreno todos os meses. Sem reconhecimento diplomático das democracias ocidentais, a junta militar precisa desesperadamente de armas, dinheiro e apoio diplomático. A China é o único país com peso global disposto a oferecer essa proteção em troca de acesso aos minerais estratégicos da região. Funciona como um contrato de prestígio: Pequim garante a sobrevivência do regime e ganha direitos de exploração.
A aproximação consolida a China como a potência hegemônica no Sudeste Asiático. O presidente chinês, Xi Jinping, expande sua influência sem precisar disparar um único tiro. Mianmar se torna um estado satélite, dependente economicamente de seu vizinho poderoso. A visita fecha o cerco chinês sobre uma região estratégica para o comércio marítimo global. O movimento demonstra como regimes isolados encontram em Pequim uma alternativa viável ao eixo diplomático liderado pelos Estados Unidos.
Síntese
Potências e regimes sob pressão estão recalibrando suas fontes de poder e segurança. A ordem internacional está se ajustando a uma realidade em que a força militar e os acordos de sobrevivência substituem o direito internacional. A estabilidade do mundo depende cada vez menos de instituições multilaterais e muito mais do cálculo estratégico entre grandes potências.
O ataque conjunto ao Irã revelou que intervenções externas frequentemente fortalecem alas radicais em vez de derrubá-las. A decisão da OTAN de modernizar seu arsenal nuclear mostra que a garantia de segurança do bloco exige cada vez mais ameaças bélicas reais. O apoio aéreo à Ucrânia esbarra na ambiguidade política da Casa Branca sobre o papel de Putin na guerra. Na periferia desse tabuleiro, o ditador de Mianmar encontra em Pequim o patrocinador que o Ocidente recusa. Eventos em continentes diferentes são medições do mesmo desgaste das normas globais.
A consolidação desse padrão aponta para um mundo mais fragmentado e perigoso. Regiões inteiras ficam à mercê de disputas diretas entre Estados Unidos, China e Rússia. O enfraquecimento da diplomacia multilateral cria vácuos de poder que líderes ambiciosos estão dispostos a explorar. O encontro entre Trump e seus pares do G7 no próximo mês indicará se a escalada militar e a busca por alianças de emergência trarão estabilidade ou mais volatilidade.
Fontes
- On the latest episode of “Decision Points,” host @DavidMakovsky sits down with two top analysts, former Israeli National Security Council ai · Washington Institute [think tank]
- The leader of Myanmar’s new military-backed government is on a five-day visit to China, his first to the country since being appointed presi · The Diplomat [imprensa]
- “While al-Sharaa’s Syria appears willing to partner with the United States and its regional allies in containing Iran and promoting regional · Washington Institute [think tank]
- “The Iran war’s grimmest outcome is that it stifled a potential internal transformation,” writes @citrinowicz. The U.S.-Israeli assault “did · Foreign Affairs [imprensa]
- U.S. citizen Min Zin, the head of a prominent Myanmar-focused think-tank, has been accused of “endangering China’s national security.” · The Diplomat [imprensa]
- As the old bipartisan pro-Israel consensus collapses, a new anti-Israel consensus is taking shape on the edges of both the Democratic and Re · Foreign Policy [imprensa]
- “Nuclear deterrence is not working,” argues @Gottemoeller. What does that mean for global security? · Foreign Affairs [imprensa]
- Trump’s war has led to a reversal that marks a strategic calamity far greater than the U.S. defeat in the Vietnam War, writes @profmusgrave. · Foreign Policy [imprensa]
- A joint statement from the G7 leaders states that the countries will increase the supply of air defense systems to Ukraine and are ready to · War Translated [monitor conflitos]
- Trump did not answer a journalist's question about whether Putin is to blame for the ongoing war in Ukraine. Strangely, this time he didn't · War Translated [monitor conflitos]
- The General Staff of Ukraine reported that a shadow fleet tanker, the FINA A (IMO 9283306), was hit in the Black Sea. The vessel is under sa · War Translated [monitor conflitos]
- NATO says it agrees to modernise nuclear capabilities https://t.co/ZD2tSDWspN https://t.co/ZD2tSDWspN · Reuters [agência]
- The newly recorded casualties at hospitals in besieged Gaza brings the total death toll since the start of Israel’s genocidal war in October · Al Jazeera English [agência]
- Trump também disse que os terroristas do Hamas "estão se comportando bem". · Hoje No [imprensa BR]
- Trump assinou ontem o Memorando de Entendimento com o Irã. Através desse documento, o Irã oferece o seguinte: · Hoje No [imprensa BR]