Guerras costumavam ser decididas por quem tinha mais tanques, aviões e soldados. Em 2026, o fator decisivo passou a ser quem tem os melhores algoritmos e a maior infraestrutura de processamento de dados. Enquanto o Oriente Médio testa armas digitais no campo de batalha e a Ucrânia transforma o cansaço russo em moeda de troca diplomática, a inteligência artificial redefine o significado de poder militar no século 21.
Irã-Israel: guerra de algoritmos
A inteligência artificial se tornou o teatro principal da guerra entre Irã e Israel. Segundo o Washington Institute, Teerã passa a mirar centros de processamento de dados no Golfo Pérsico enquanto Estados Unidos e Israel usam algoritmos para acelerar a seleção de alvos militares. O ministro iraniano advertiu que a trégua sinalizada pode ruir se Israel mantiver operações contra o Hezbollah no Líbano.
A pausa nos ataques diretos reflete o esgotamento temporário das duas partes, não uma mudança de intenções. Israel emitiu ordem de evacuação para a cidade de Tiro, no sul do Líbano, seguida por um forte ataque contra posições do Hezbollah. É como uma partida de xadrez em que ambos os jogadores precisam recuperar o fôlego, mas mantêm as peças posicionadas para o próximo lance.
O presidente Donald Trump apareceu como o principal freio político sobre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e avisou que Israel poderia acabar lutando sozinho caso retome a ofensiva em grande escala. A ameaça americana muda o cálculo israelense porque, sem o apoio logístico e diplomático de Washington, Jerusalém não consegue sustentar uma guerra prolongada em múltiplas frentes. O front libanês continua servindo como válvula de escape da guerra enquanto a tensão entre Irã e Israel permanece em estado de pausa tensa.
Ucrânia recua na ofensiva, avança na mesa
A resistência ucraniana está convertendo o desgaste russo em alavancagem diplomática. Segundo a revista Foreign Affairs, a Ucrânia fez avanços ao longo da linha de frente e frustrou as ofensivas russas enquanto o exército de Moscou sente o peso de uma guerra que completa três anos. O presidente Volodymyr Zelensky negocia de uma posição inesperadamente forte para quem enfrentou uma invasão em fevereiro de 2022.
O cessar-fogo se tornou uma possibilidade real porque o exército russo apresenta deterioração visível de sua capacidade de combate. Políticos russos chegaram a propor o uso de armas nucleares para forçar a rendição da Ucrânia, segundo o monitoramento de campo de fontes de segurança. A ameaça nuclear funciona como um grito de desespero de quem não consegue vencer no campo de batalha convencional.
A coalizão de apoio a Kiev começa a rachar. A Bulgária anunciou que não enviará mais armas à Ucrânia e argumentou que o país precisa de soldados, não de armamentos. A posição búlgara é um sintoma do desgaste europeu com uma guerra que não tem data para acabar. O ministro da Defesa da Bulgária expressou em voz alta o que outros governos europeus pensam em silêncio: a expectativa de que a Ucrânia substitua por recrutamento reforçado ignora a realidade demográfica de um país que já perdeu parte significativa de sua população em idade militar.
Corrida por chips vira estratégia nacional
O controle da cadeia de semicondutores se tornou prioridade militar tanto quanto econômica. O Reino Unido anunciou um plano de 80 milhões de libras, cerca de 500 milhões de reais, para formar especialistas em chips e hardware de inteligência artificial. O programa inclui bolsas de estudo, parcerias universitárias e uma aliança com a empresa britânica de tecnologia Arm.
No mesmo dia, a agência Reuters informou que a OpenAI negocia alugar um centro de processamento de dados em Ohio com apoio da Nvidia, a gigante americana de processadores para inteligência artificial. Sem infraestrutura de dados, não há soberania tecnológica.
A corrida por chips é o equivalente contemporâneo à corrida armamentista da Guerra Fria. Naquela época, países mediam poder pelo número de ogivas nucleares e mísseis balísticos intercontinentais. Hoje, a medida são os centros de processamento e a capacidade de treinar modelos de inteligência artificial em larga escala. O primeiro-ministro britânico Keir Starmer e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tratam semicondutores com a mesma urgência que seus antecessores tratavam urânio enriquecido.
Gaza tenta reconstruir o futuro entre escombros
Um centro de inovação tecnológica em Gaza resiste à destruição sistemática promovida por Israel. A guerra matou especialistas e destruiu incubadoras que ofereciam oportunidades de trabalho a jovens palestinos. É a dimensão menos visível do conflito: a eliminação deliberada da capacidade produtiva de uma sociedade.
As incubadoras de tecnologia palestinas funcionavam como uma espécie de reserva de esperança em um território sitiado. Ofereciam a jovens formados em programação e engenharia de software uma alternativa ao desemprego crônico e à dependência de ajuda humanitária. Quando um drone israelense destrói um escritório de startups, não elimina apenas empregos, mas interrompe a trajetória de uma geração que escolheu o código como forma de resistência.
A reconstrução da infraestrutura digital de Gaza demorará anos e dependerá de investimento externo que ainda não existe. O dano vai além dos edifícios reduzidos a escombros porque o conhecimento técnico perdido com a morte de programadores e engenheiros não se recupera com cimento e aço. A eliminação da capacidade produtiva palestina segue um padrão de guerras contemporâneas em que a destruição de infraestrutura civil funciona como arma de desmobilização social.
Conflito no Golfo contamina bancos asiáticos
O Kasikornbank, um dos maiores bancos da Tailândia, informou que a guerra no Oriente Médio deve deteriorar a qualidade de seus ativos no segundo semestre de 2026. A instituição prometeu socorrer clientes afetados pelo conflito e reconheceu que a violência regional já prejudica operações financeiras na Ásia. É a evidência concreta de que guerras modernas não respeitam fronteiras geográficas.
A conexão entre bombardeios no Líbano e balanços bancários em Bangkok funciona como uma onda sísmica. A explosão acontece em um ponto, mas o impacto viaja pelas redes de comércio internacional, cadeias de suprimento e mercados de câmbio até atingir instituições que nunca ouviram falar de Tiro ou do Hezbollah.
O aviso do Kasikornbank antecipa o que outros bancos asiáticos devem confirmar nas próximas semanas. Se o conflito no Golfo se prolongar, o efeito cascata sobre o sistema financeiro global transformará uma guerra regional em uma crise de liquidez com capacidade de infectar economias emergentes distantes do campo de batalha.
Síntese
A inteligência artificial emergiu como o fator que conecta todos os conflitos deste ciclo de violência e rearmamento. Ela define alvos militares no Golfo, processa dados em Ohio com apoio da Nvidia e torna semicondutores tão estratégicos quanto munições para os exércitos do século 21.
No Oriente Médio, algoritmos escolhem quem morre em ataques aéreos enquanto centros de dados viram alvos legítimos. Na Ucrânia, o desgaste russo abre espaço para negociações que podem redefinir as fronteiras da Europa oriental. No Reino Unido e nos Estados Unidos, governos e empresas disputam o controle da infraestrutura digital com a mesma determinação que disputavam jazidas de petróleo no século passado. Até mesmo os escombros de Gaza carregam essa lógica: a destruição de incubadoras de tecnologia elimina a possibilidade de reconstrução autônoma. E quando um banco tailandês anuncia perdas por causa de uma guerra a 6 mil quilômetros de distância, fica evidente que a separação entre front e retaguarda deixou de existir.
A consequência estrutural é clara. Países que não dominam a cadeia de semicondutores e processamento de dados ficarão dependentes de quem controla essa infraestrutura. A soberania nacional, no século 21, passa pela capacidade de treinar algoritmos e fabricar chips. Enquanto os centros de processamento continuarem sendo alvos de guerra, a estabilidade do sistema financeiro global ficará refém de conflitos regionais que prometem se multiplicar.
Fontes
- AI has been central to the Iran war, with Iran targeting data centers in the Gulf even as the U.S. and Israel are using AI to speed up their · Washington Institute [think tank]
- Israel's tech sector hopes for a new era of U.S.-Israel security cooperation that prioritizes joint development over dependency. In a new ep · Washington Institute [think tank]
- The U.S. has hesitated to share its most sensitive AI tech with Israel and its Gulf partners, fearing it will end up in China's hands. A new · Washington Institute [think tank]
- As Ukraine makes “gains along the frontline and frustrates Russian offensives, and as the Russian military increasingly feels the strain of · Foreign Affairs [imprensa]
- Unless this week’s negotiations fundamentally change Israel’s approach to Lebanon, “the renewal of full-on war will be inevitable—and the ho · Foreign Affairs [imprensa]
- UK launches AI Hardware Plan with £80m skills package for semiconductors · Newsdata: Edtech Innovation Hub
- A new report by @CSISDefense outlines a U.S. defense strategy of flexible engagement built around a two-war planning construct and a rapid s · CSIS [think tank]
- Happening now: Mehreen Khan, a former sports journalist and now the economics editor of The Times, joins FP Live to discuss this year’s FIFA · Foreign Policy [imprensa]
- @MehreenKhn Watch the conversation live: https://t.co/Nku4CSKHPD · Foreign Policy [imprensa]
- Bulgarian Defense Minister: Bulgaria will no longer send military aid to Ukraine. Ukraine needs more people, not more weapons. · War Translated [monitor conflitos]
- Transcrição do briefing: · Hoje No [imprensa BR]
- Russian politicians are proposing to use nuclear weapons to force Ukraine's leadership to sign a capitulation. This is because the "special · War Translated [monitor conflitos]
- Rising from the rubble: A Gaza tech incubator defies Israel’s war · Al Jazeera English
- OpenAI weighs leasing Ohio data center with Nvidia backing, The Information reports - Reuters · Reuters World News
- Mideast war dents KBank asset quality · GNews: Bangkok Post