Olho no Mundo 9 de junho de 2026
Três frentes de tensão definem o cenário global nesta segunda-feira. A Rússia permanece presa à guerra na Ucrânia não por capacidade de vitória, mas por incapacidade de parar sem desencadear turbulência interna que o Kremlin não controla. Irã e Israel retomaram os ataques diretos após dois meses de trégua, sinalizando que a dissuasão militar tradicional não consegue virar um conflito em acordo estável. E os Estados Unidos, sob o comando de Donald Trump, buscam reescrever o jogo geopolítico usando ferramentas econômicas como arma tão letal quanto mísseis, enfatizando que força bruta sozinha não vence rivais modernos.
Rússia: a armadilha da continuidade
O conflito na Ucrânia alcançou um ponto que analistas de política internacional descrevem como inércia estratégica. Parar a guerra agora custaria a Vladimir Putin mais do que mantêla indefinidamente, porque a economia russa passou quatro anos se reorganizando em torno da produção militar e do financiamento de operações de combate. Uma transição súbita para paz geraria desemprego em regiões que dependem de fábricas de armas, pressão de veteranos traumatizados sem estrutura de reintegração e questionamentos políticos sobre quem pagou o preço de uma guerra sem vitória clara. O Kremlin não tem ferramentas institucionais para absorver esse choque.
Essa dinâmica explica por que conversas de negociação avançam e depois congelam: não é apenas que Putin queira expandir fronteiras, mas que a estrutura econômica e social russa está atrelada à continuação do conflito. Como uma fila de crédito que secou e agora depende de roubar o vizinho para sobreviver, a Rússia segue alocando recursos para guerra porque desmobilizar geraria crise doméstica. Analistas do Foreign Affairs identificam essa armadilha: quanto mais longa a guerra, mais profunda a dependência econômica dela, e mais cara se torna qualquer solução que não seja vitória militar total ou colapso interno.
A implicação é que o conflito da Ucrânia não será resolvido por negociação num futuro próximo, mas por transformação interna em Moscou ou exaustão militar em Kiev. O que monitorar: mudanças na liderança russa em ministérios econômicos ou sinais de tensão entre oligarcas beneficiários da guerra e setores que sofrem desindustrialização.
Irã e Israel: a trégua que o dólar não aguenta
Depois de dois meses sem ataques diretos entre os dois países, Irã e Israel trocaram disparos novamente na semana passada, reafirmando que a cessação de hostilidades era suspensão de fogo temporária, nunca encerramento do conflito. O que mais impressionou analistas foi que Teerã conseguiu manter capacidade operacional depois que Estados Unidos e Israel reivindicaram ter atingido mais de 13 mil alvos no território iraniano em campanhas anteriores. Isso levantou a pergunta incômoda: ou os bombardeios foram menos eficazes que apresentado, ou a resiliência da defesa aérea iraniana é superior ao calculado.
A retomada dos ataques revela a dificuldade da administração Trump em impor sua vontade sobre a dinâmica do conflito. O presidente americano tentava manter Israel contido enquanto simultaneamente enfraquecia o Irã economicamente, como se fosse possível separar a pressão militar da pressão diplomática quando ambos os lados consideram a outra uma ameaça existencial. Cada lado aguarda o próximo passo do adversário. Israel não quer ver o Irã rearmado; Irã não quer ser encurralado sem capacidade de resposta. O impasse permanece sem resolução clara, porque nenhuma quantidade de bombardeios convenceu o outro lado a abandonar sua lógica de defesa.
Para Washington, isso significa que contenção do Irã exigirá mais do que operações militares. Será necessário redesenhar a arquitetura de poder no Oriente Médio de forma que Teerã não veja a escalada como única opção. Esse é exatamente o tipo de trabalho que Trump reluta em fazer, preferindo aplicar máxima pressão e esperar que o adversário ceda. O que acompanhar: novos ataques preventivos de Israel contra instalações militares iranianas.
EUA: economia como instrumento de guerra
Enquanto a administração Trump navega conflitos que armas não resolvem sozinhas, analistas do CSIS e outros centros de pesquisa americana passaram a insistir que o país precisa de uma estratégia econômica integrada à defesa nacional. A ideia é aparentemente simples, mas exige transformação institucional profunda: usar sanções comerciais, controle de cadeias de suprimento e restrição de transferência tecnológica não como punições adicionais, mas como elementos centrais de uma estratégia de dissuasão contra China e Rússia.
O argumento é que adversários modernos não temem tanto destruição militar quanto negação de acesso. Se Washington conseguir dificultar que China construa semicondutores avançados ou que Rússia rearme seus sistemas de defesa aérea, terá conseguido através de regulação comercial o que custaria muito mais caro em operações militares. Isso é particularmente relevante no Indo-Pacífico, onde o equilíbrio de poder depende menos de batalhas diretas e mais de quem consegue manter sua base industrial funcionando enquanto degrada a do adversário. O pensamento estratégico americano está se reorientando: força militar sem superioridade econômica é músculo sem suprimento de sangue.
A mudança de ênfase tem consequências práticas imediatas. Significa mais restrições a fornecedores chineses, mais supervisão sobre investimento estrangeiro em setores críticos americanos, mais coordenação com aliados europeus para garantir que sanções não vazem. É uma abordagem que demanda coerência institucional em toda administração, algo que Trump não é conhecido por manter. Ainda assim, tanto republicanos quanto democratas em Washington estão convergindo para essa lógica, porque reconhecem que o século vinte e um não será decidido por batalhas navais, mas por quem controla a circulação de componentes eletrônicos, terras raras e conhecimento técnico.
Síntese
Os três eventos desta semana descrevem o mesmo fenômeno: as maiores potências do mundo descobriram que força militar pura não consegue mais vencer conflitos de forma sustentável. A Rússia aprendeu que ganhar militarmente na Ucrânia não resolve seu problema estrutural; pelo contrário, a guerra se tornou a solução econômica temporária para uma crise demográfica e de inovação que persiste. Irã mantém-se relevante não através de superioridade bélica, mas através da recusa em capitular, forçando Washington a reconhecer que bombardear 13 mil alvos não produce rendição. E os EUA, observando esses impasses, começam a articular uma estratégia que reconhece que dinheiro e tecnologia controlam poder mais diretamente que ogivas nucleares.
O padrão subjacente é a erosão da eficácia da força militar isolada como instrumento decisivo de política internacional. Quando conflitos deixam de ter vitória militar clara, a guerra se torna ferramenta de contenção, não de resolução. Rússia contém sua crise interna através da guerra contínua. Irã contém sua vulnerabilidade através da recusa de capitulação. Israel contém a ameaça iraniana através de bombardeios que não eliminam a ameaça. E todos esses mecanismos de contenção geram custos crescentes, enquanto produzem resultados cada vez menores. A resposta que emerge, especialmente de Washington, é reconhecer que o verdadeiro poder reside em quem consegue negar ao adversário o que ele precisa para funcionar: capital, tecnologia, acesso a mercados, componentes eletrônicos. Isso é mais lento que uma invasão, mas muito mais sustentável que tentar vencer por força pura num mundo onde ninguém consegue mais ser vencido dessa forma.
Se esse padrão se consolidar nos próximos anos, o cenário global não será definido por guerras convencionais, mas por cadeias de suprimento como trincheiras. O vencedor não será quem tiver mais tanques, mas quem controlar a circulação de semicondutores, energia e matérias-primas críticas. Para o Brasil, isso significa que a próxima década dependerá menos de alianças militares tradicionais e mais de posicionamento nas cadeias de valor global. Será crucial monitorar se Washington consegue manter coerência nessa estratégia econômica porque se fracassar e voltar ao padrão de força bruta, o mundo inteiro volta a ser mais imprevisível e perigoso.
Fontes
- Ending the war in Ukraine now would produce economic, social, and political upheaval in Russia—a dangerous prospect for the Kremlin, write @ · Foreign Affairs [imprensa]
- Trump’s limited ability to dictate the war’s direction was on display as Israel and Iran traded fire for the first time since a truce began · Foreign Policy [imprensa]
- In Ukraine, “what has long seemed so implausible has become more likely,” writes @Jack_Watling. “Kyiv and its partners could convince Moscow · Foreign Affairs [imprensa]
- As the Iran war continues – and especially after this weekend’s escalation – questions remain about where the U.S.-Israel relationship stand · Carnegie Endowment [think tank]
- "Few imagined that the Iranians would be able to assert so much leverage after the U.S. and Israel claimed to have hit more than 13,000 targ · Washington Institute [think tank]
- In the lead-up to Operation Epic Fury, “the Pentagon was convinced that sheer power would win the United States a quick victory,” writes @La · Foreign Affairs [imprensa]
- This year’s FIFA World Cup comes amid a particularly fraught geopolitical backdrop. What does this tournament tell us about the state of the · Foreign Policy [imprensa]
- Despite constant attacks that inflict nonstop hardship on Ukrainians, Putin has failed to break their will, writes Seth Stodder. · Foreign Policy [imprensa]
- The latest concessions likely don’t represent a softening of the military’s hard line but instead a belief that the worst of its opposition · Foreign Policy [imprensa]
- Economic strategists are pitching tougher policies for an anxious world. · Foreign Policy [imprensa]
- “The very crisis Trump created is forcing U.S. allies to develop military and intelligence capabilities that could eventually make Washingto · Foreign Affairs [imprensa]
- New U.S. terrorist designations targeting two gangs in Brazil could have far-reaching political and economic implications. · Carnegie Endowment [think tank]
- “The reality is that coercive diplomacy is not effective,” write Tom Pickering, Gabrielle Rifkind, and Paul Ingram. “It is thus time for U.S · Foreign Affairs [imprensa]
- “The United States needs a clearer way to use economic tools to strengthen its own defense base while making it harder for rivals to build m · CSIS [think tank]
- NEW: The U.S. must expand and modernize its force structure to deter two multi-theater wars. A new @CSISDefense report outlines a U.S. defen · CSIS [think tank]