Depois de três meses de guerra envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos, o mundo assiste a uma disputa paralela à dos campos de batalha: a corrida para definir como o conflito termina e quem dita as regras do que vem depois. Enquanto diplomatas se movem em sigilo, generais preparam novas ofensivas e líderes políticos transformam acordos de paz em moeda de troca, a sensação é a de um tabuleiro sendo reposicionado antes da jogada final.
A paz que o Irã não consegue aceitar
Após três meses de bombardeios e contra-ataques, Estados Unidos e Irã ensaiam os primeiros passos de um acordo para interromper a guerra. Segundo a revista Foreign Policy, negociadores americanos e iranianos aproximaram-se de uma fórmula de cessar-fogo, embora os detalhes exatos continuem sob sigilo. O ex-enviado especial dos EUA para o Irã, Robert Malley, avalia que a administração do presidente Donald Trump tem poucas opções restantes para forçar um desfecho.
A dificuldade não está apenas na mesa de negociações. Na avaliação do Carnegie Endowment, o regime iraniano mantém uma obsessão ideológica por um inimigo externo, elemento central de sua identidade desde a revolução de 1979. Essa fixação transforma qualquer tentativa de paz estrutural em uma aposta frágil, como construir uma casa sobre areia movediça: o acordo pode até ser assinado, mas a base que o sustenta não é sólida. Enquanto o governo de Teerã precisar da hostilidade para justificar sua existência interna, a guerra será sempre uma tentação.
A consequência prática é que qualquer cessar-fogo terá data de validade curta. Mesmo que o presidente Trump consiga anunciar o fim das hostilidades, a estrutura que alimenta o conflito permanece intacta em Teerã.
Israel e o dilema do Líbano
Enquanto Washington negocia com o Irã, a cúpula de segurança israelense debate uma operação militar de grande escala contra o Hezbollah, a milícia xiita baseada no Líbano. Segundo o Carnegie Endowment, discussões internas em Tel Aviv assumiram um tom agressivo nas últimas semanas. Para a analista Shira Efron, escrevendo na revista Foreign Affairs, a menos que as negociações da semana mudem fundamentalmente a postura de Israel em relação ao Líbano, a retomada total da guerra será inevitável.
Israel enfrenta uma encruzilhada. O país pode aceitar o risco de combater em duas frentes simultâneas, contra o Irã ao leste e o Hezbollah ao norte, ou pode apostar que uma ofensiva devastadora destruiria a milícia libanesa de uma vez por todas. A lógica por trás da tentação de expandir o conflito é simples: desde os atentados de 7 de outubro de 2023, a tolerância de Israel com ameaças em suas fronteiras encolheu a quase zero. Manter o Hezbollah armado ao norte parece inaceitável para a opinião pública israelense. Mas agir contra o Líbano significa abrir outra frente antes de a atual estar resolvida, algo que sobrecarrega recursos militares e testa a aliança com os Estados Unidos.
Se Israel atacar o Líbano, a guerra regional que americanos e europeus tentam evitar desde março se concretiza. O Hezollah possui mais de 100 mil foguetes apontados para cidades israelenses, e uma ofensiva terrestre no sul do Líbano teria um custo humano elevado para ambos os lados.
Trump transforma Acordos de Abraão em condição para paz
O presidente Donald Trump ligou para líderes do Norte da África e do Oriente Médio com uma exigência surpreendente. Segundo o Middle East Institute, Trump condicionou o fim da guerra IrãEUA à adesão de aliados árabes aos Acordos de Abraão, os tratados de normalização diplomática entre Israel e países árabes iniciados em 2020. A embaixadora Barbara Leaf relatou que assessores presentes na ligação descreveram o silêncio dos líderes árabes como "estarrecido".
A exigência revela como a diplomacia no Oriente Médio se tornou uma moeda de troca explícita. Os Acordos de Abraão nasceram como acordos de normalização econômica e diplomática. Agora, Trump os transforma em pedágio: para alcançar a paz entre EUA e Irã, nações árabes precisam primeiro reconhecer publicamente Israel. Para países como Arábia Saudita e Catar, a exigência é explosiva. Enquanto a guerra em Gaza não tiver uma resolução aceitável para suas opiniões públicas, reconhecer Israel significaria enfrentar revoltas internas. A exigência americana coloca esses governantes entre a lealdade a Washington e a própria sobrevivência política doméstica.
A posição americana sugere que a paz no Oriente Médio não será negociada apenas entre os beligerantes. Países que até agora observavam o conflito de longe podem ser arrastados para o centro da mesa.
O trampolim militar de Tóquio e a espera de Kiev
Do outro lado do mundo, duas potências ajustam sua postura militar em ritmos completamente diferentes. No Japão, o ministro da Defesa, Koizumi Shinjiro, transformou uma pasta tradicionalmente técnica em trampolim político. Segundo a revista The Diplomat, o que antes era um cargo menor na hierarquia governamental japonês passou a ser o centro das atenções, com Koizumi usando o debate sobre rearmamento para projetar ambições nacionais. O Japão vive um momento de redefinição de seu papel militar após décadas de constituição pacifista. A ameaça chinesa no mar da China Oriental e a Coreia do Norte com seu arsenal nuclear mudaram o cálculo de Tóquio.
Na Europa, a Ucrânia aguarda sinais sobre o futuro da guerra contra a Rússia. Segundo o CSIS (centro de estudos estratégicos sediado em Washington), o historiador Lawrence Freedman avalia que o conflito entra em uma fase de expectativa sobre como evoluirá nos meses seguintes. A diferença entre Tóquio e Kiev é brutal. O Japão investe na defesa como projeto político nacional, construindo capacidade antes que a guerra chegue. A Ucrância depende de apoio externo para sustentar uma guerra que já está em seu terceiro ano e consome recursos mais rápido do que o Ocidente consegue repor.
A desconexão entre os dois cenários esconde um padrão comum. Tanto o Japão quanto a Ucrânia dependem da mesma pergunta: até que ponto os Estados Unidos garantirão a segurança de aliados distantes. Para Tóquio, a resposta define o tamanho do orçamento militar. Para Kiev, define se haverá munição suficiente para o próximo inverno.
Síntese
A guerra entre Irã e Israel é o laboratório de uma transição global que avança em velocidades diferentes conforme a região. O padrão é a mesma incerteza: sem garantias americanas estáveis, cada país precisa calcular o próprio risco. Em Washington, Trump negocia com Teerã enquanto condiciona a paz à normalização diplomática de aliados árabes, sem reconhecer que a exigência pode afundar governos parceiros. Em Tel Aviv, generais consideram atacar o Líbano antes que a diplomacia lhes tire a janela de oportunidade, apostando que a força pode substituir a negociação. Em Tóquio, um ministro usa o rearmamento como projeto pessoal e nacional. Em Kiev, a sobrevivência depende de decisões tomadas em capitais distantes.
Cada um desses movimentos reflete a mesma fratura. A ordem que manteve guerras regionais contidas por décadas dependedia de uma América disposta a pagar o preço da estabilidade global. Quando esse comprometimento oscila, aliados recalculam e adversários avançam. A convergência entre um cessar-fogo frágil no Golfo, uma ofensiva possivelmente iminente no Líbano e corridas armamentistas na Ásia não é coincidência. São respostas diferentes à mesma ausência de previsibilidade no sistema internacional.
Se o padrão se consolidar, a próxima década não será definida por uma guerra única, mas por muitas crises simultâneas onde cada aliado decide sozinho quanto de segurança pode comprar e cada adversário testa os limites do que pode conquistar. O mês de junho de 2026 pode marcar o momento em que essa lógica deixou de ser hipótese para se tornar o novo normal.
Fontes
- Has the U.S.-Israel military relationship peaked with the Iran war? Tune in to the latest episode of “Decision Points” as host @DavidMakovsk · Washington Institute [think tank]
- Unless this week’s negotiations fundamentally change Israel’s approach to Lebanon, “the renewal of full-on war will be inevitable—and the ho · Foreign Affairs [imprensa]
- Even as (tenuous) negotiations continue, the Iranian regime’s “monomaniacal focus” on fighting an enemy that’s central to its identity will · Carnegie Endowment [think tank]
- After three months of war, the United States and Iran may be inching toward a deal. But what other objectives have been accomplished? What d · Foreign Policy [imprensa]
- Ukraine and its partners now have “a growing opportunity to convince Putin that a cease-fire is his least risky option,” writes @Jack_Watlin · Foreign Affairs [imprensa]
- Trump said ending the Iran war should require allies to join the Abraham Accords. He also raised the proposal on a call with MENA leaders. A · Middle East Institute [think tank]
- World Brief: Russia launches a massive aerial bombardment on Ukraine, Israeli strikes on southern Lebanon risk destabilizing a fragile parti · Foreign Policy [imprensa]
- In the lead-up to Operation Epic Fury, “the Pentagon was convinced that sheer power would win the United States a quick victory,” writes @La · Foreign Affairs [imprensa]
- After calling off a conference on digital rights, the Zambian government pointed to Chinese pressure as the reason for the move. The real st · Carnegie Endowment [think tank]
- Read Mohammad Ayatollahi Tabaar on why the Islamic Republic now believes that prolonging the war serves its interests: · Foreign Affairs [imprensa]
- On a new episode of Russian Roulette, the CSIS Europe, Russia, and Eurasia Program welcomes Sir Lawrence Freedman to discuss the future of t · CSIS [think tank]
- A recent attack in Jerusalem highlights a worrying trend intensified by wartime nationalism, Giovanni Legorano writes. · Foreign Policy [imprensa]
- Democracy promotion is out, and the race to engage the country’s junta is on, Michael Haack writes. · Foreign Policy [imprensa]
- Recently, Israel’s security discussions have taken a more aggressive turn. What’s behind this shift – and what does it mean for the future? · Carnegie Endowment [think tank]
- How a defense portfolio transformed Japan’s most underestimated politician. https://t.co/FqlvK0ujZt · The Diplomat [imprensa]