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Diáriaterça-feira, 2 de junho de 2026

O eixo Irã-Israel e o limite das alianças

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Tópicos desta edição

  1. 01O eixo Irã-Israel e o limite das alianças
  2. 02Guerra do Sudão reflete a desordem global
  3. 03Corrida armamentista na Ásia com munição indo-russa

A guerra entre o Irã e seus adversários deixou de ser um episódio do Oriente Médio e virou um teste de força que se sente em três continentes. Israel endurece sua doutrina de segurança, a Turquia tenta não escolher lado, e a relação militar entre Estados Unidos e Israel, antes tratada como inabalável, começa a mostrar rachaduras. Ao mesmo tempo, a falta de uma potência capaz de impor ordem deixa conflitos distantes, do Sudão ao Sudeste Asiático, à própria sorte.

O eixo Irã-Israel e o limite das alianças

A relação militar entre Estados Unidos e Israel passou a ser questionada em voz alta durante a guerra com o Irã. Em um debate promovido pelo Washington Institute, instituto de pesquisa em política externa sediado em Washington, dois nomes de peso foram chamados para avaliar o que cada exército aprendeu até agora: Amir Eshel, ex-comandante da Força Aérea israelense, e Eliot Cohen, ex-conselheiro do Departamento de Estado americano. A pergunta que dá título ao episódio é direta: a parceria militar entre os dois países já atingiu seu auge?

A dúvida não surge do nada. Declarações contraditórias do presidente americano, Donald Trump, deixaram no ar se Washington pretende sustentar o esforço de guerra ou recuar. Quando o aliado mais poderoso hesita, o sócio menor precisa se reposicionar. É o que explica a guinada mais agressiva no debate de segurança israelense, tema que o Carnegie Endowment, outro centro de estudos americano, colocou em pauta com os analistas Marwan Muasher e Mairav Zonszein. A leitura deles é que Israel, diante da incerteza sobre o respaldo americano, aposta em uma postura militar mais autônoma e dura.

A Turquia, por sua vez, escolheu o caminho oposto. Segundo análise de Soner Cagaptay, do Washington Institute, a política turca em relação ao Irã é ditada antes de tudo pela vizinhança e por uma rivalidade histórica em que nenhum dos dois nunca subjugou o outro. Ancara mantém papel deliberadamente limitado na guerra, sem se alinhar de forma plena a Israel nem ao Irã. O que monitorar: se o recuo americano se confirmar, mais aliados regionais tenderão a calcular a segurança por conta própria, como já faz a Turquia.

Guerra do Sudão reflete a desordem global

O custo humano de um mundo sem árbitro aparece com clareza no Sudão. O país africano vive uma guerra civil que se arrasta há anos, e agora ela ficou ainda mais difícil de encerrar. Segundo a revista Foreign Policy, a teia de atores externos envolvidos no conflito sudanês se cruza com a mesma rede de potências que disputa o Oriente Médio. Os países que financiam e armam os lados em Cartum, capital do Sudão, são em parte os mesmos que se posicionam na crise iraniana.

A lógica é a de uma mesa de negociação com gente demais e interesses opostos demais. Quanto mais as grandes potências se enfrentam em uma região, menos disposição sobra para costurar a paz em outra. Cada padrinho externo do conflito sudanês tem sua própria agenda, e essas agendas mudam conforme o tabuleiro do Oriente Médio se move. O resultado é um caminho para a paz cada vez mais tortuoso.

Sem uma potência hegemônica capaz de impor um acordo, conflitos locais perdem prazo de validade. Eles não terminam, apenas mudam de intensidade. O Sudão deixou de ser uma guerra isolada e virou medição da fragmentação do poder mundial: quando ninguém manda o suficiente para forçar um cessar-fogo, o sofrimento de civis se torna crônico.

Corrida armamentista na Ásia com munição indo-russa

O Vietnã vai comprar o míssil BrahMos. Com isso, tornase o terceiro país do Sudeste Asiático a adquirir o sistema, depois das Filipinas e da Indonésia. A informação foi confirmada por um ministro indiano e divulgada pela publicação The Diplomat, especializada na Ásia-Pacífico. O BrahMos é uma arma poderosa de longo alcance, fruto de uma sociedade entre a Índia e a Rússia.

O detalhe que importa está nessa origem. O míssil é, em parte, tecnologia russa, e segue sendo vendido e cobiçado mesmo com a Rússia sob pesadas sanções ocidentais, as punições econômicas impostas por Estados Unidos e Europa. Países do Sudeste Asiático buscam armarse diante da expansão militar chinesa, e encontram na parceria indo-russa uma alternativa mais barata e disponível do que o arsenal americano. A demanda existe, e há quem a atenda fora do guarda-chuva ocidental.

Esse apetite cruza com um alerta vindo de dentro de Washington. O CSIS, sigla do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, instituto de defesa americano, avalia que os próprios Estados Unidos teriam dificuldade de sustentar uma guerra longa contra a China. Faltariam munições de longo alcance, sistemas de defesa aérea e drones em quantidade suficiente. Quando o maior fornecedor de armas do mundo admite que seu estoque não basta para uma guerra prolongada, abrese espaço para que concorrentes como a Índia ocupem o vazio.

Síntese

Os três temas desta edição medem a mesma coisa por instrumentos diferentes: a ordem mundial construída em torno do poder americano está sendo testada em várias frentes ao mesmo tempo, e em nenhuma delas a resposta é tão automática quanto foi no passado. O que uma o Oriente Médio, o Sudão e a Ásia não é a guerra em si, mas a hesitação do antigo árbitro.

No Oriente Médio, a parceria entre Estados Unidos e Israel deixa de ser certeza e vira pergunta, enquanto a Turquia já se comporta como quem não conta com tutela externa. Na Ásia, o avanço do BrahMos mostra que existe demanda por armas fora do circuito americano, e o alerta do CSIS revela que nem o próprio fornecedor original confia no tamanho do próprio arsenal. No Sudão, a ausência de uma potência capaz de impor acordos transforma uma guerra civil em ferida sem cicatrização. São eventos distantes entre si, mas todos apontam para o mesmo desgaste: a perda da capacidade de um único polo de organizar o jogo.

Se esse padrão se consolidar, o mundo caminha para algo mais perigoso do que a disputa entre dois gigantes. Caminha para a multiplicação de fornecedores de armas, de padrinhos de conflitos e de cálculos de segurança feitos por conta própria, em que cada país armase e aliase conforme a conveniência do momento. A pergunta concreta dos próximos meses é se a admissão de que falta munição aos Estados Unidos vai acelerar a corrida por fornecedores alternativos como a Índia, redesenhando quem depende de quem no mapa militar do planeta.


Fontes