A guerra do Irã completou três meses nesta semana e seus efeitos já não cabem mais no Oriente Médio. As cadeias globais de suprimento militar começam a rachar sob a pressão de um conflito que ninguém esperava durar tanto, e o realinhamento entre as grandes potências rivais ganha velocidade. Em Washington, no Pentágono, em Moscou e em Pequim, decisões tomadas nas últimas semanas redesenham o tabuleiro estratégico de forma que ainda não foi totalmente compreendida.
A coalizão americano-israelense ganha contornos permanentes
A coordenação militar entre Estados Unidos e Israel atingiu nos últimos três meses um patamar inédito desde a fundação do Estado israelense em 1948. Segundo análise do Washington Institute, think tank americano especializado em política do Oriente Próximo, comandantes dos dois países passaram a operar como uma estrutura única durante a campanha contra o Irã. Amir Eshel, ex-chefe da Força Aérea Israelense, e Eliot Cohen, ex-conselheiro do Departamento de Estado americano, descreveram a integração como algo que apaga a linha entre aliança e fusão operacional.
Essa cooperação extrema não nasceu de um plano de longo prazo. Ela surgiu da necessidade. Quando o conflito direto com o Irã começou, em março, Israel descobriu que sua capacidade de defesa aérea seria esgotada em semanas sem o resuprimento contínuo de interceptadores americanos. Os Estados Unidos, por sua vez, precisavam dos dados de inteligência israelenses para mirar instalações iranianas que seus próprios satélites não haviam mapeado adequadamente. A guerra forçou uma dependência mútua que a política nunca conseguiu desenhar em tempos de paz.
O resultado prático aparece agora na mesa de negociação com o Líbano. A quarta rodada de conversas entre Israel e o governo libanês, com o Pentágono ocupando uma cadeira pela primeira vez, tem agendas opostas. Israel quer concentrar tudo no desarmamento do Hezbollah, o grupo armado xiita libanês financiado pelo Irã. O Líbano quer discutir a retirada das tropas israelenses do seu território e o fim dos bombardeios. O especialista Assaf Orion, do Washington Institute, resume o impasse: cada lado considera a pauta do outro irrelevante. O que monitorar: se a presença americana na mesa força um acordo parcial ou apenas formaliza o congelamento atual.
O Pentágono sem balas para uma segunda guerra
Os Estados Unidos não têm munição suficiente para sustentar uma guerra prolongada contra a China. A frase, dura assim, vem de Seth Jones, presidente da área de Defesa do CSIS, o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington. Faltam mísseis de longo alcance, sistemas de defesa aérea, interceptadores e plataformas não tripuladas em quantidade compatível com um conflito de meses no Pacífico.
A causa é direta. A indústria americana de defesa foi dimensionada para guerras curtas e cirúrgicas, não para o consumo industrial que o Oriente Médio impôs nos últimos noventa dias. Cada interceptador Patriot disparado em Tel Aviv é um Patriot que não estará em Taiwan se Pequim decidir testar o limite. A cadeia de produção de mísseis Tomahawk leva dezoito meses para repor o que foi gasto em três. É como uma fila de crédito que secou: o banco continua aberto, mas o dinheiro não chega ao caixa na velocidade da demanda.
A implicação estratégica é vertiginosa. Se a China observa que o estoque americano está sendo queimado contra o Irã, o cálculo sobre o momento certo de pressionar Taiwan muda. Não se trata necessariamente de uma invasão imediata, mas de uma janela percebida de fraqueza ocidental. Analistas do CSIS estimam que reconstituir o estoque de munições de longo alcance a níveis aceitáveis para um conflito no Indo-Pacífico levaria entre dois e quatro anos, mesmo com produção acelerada. Esse é o intervalo de vulnerabilidade que Washington precisa atravessar agora.
Putin e Xi assinam o manifesto da guerra paralela
Vladimir Putin e Xi Jinping divulgaram em Pequim uma declaração conjunta que vai muito além do habitual ritual diplomático sino-russo. O documento, segundo análise da revista The Diplomat, é descrito como um manifesto de era de guerra. Não fala apenas de amizade entre os dois países. Fala de uma reorganização da ordem internacional enquanto o Ocidente está distraído com o Oriente Médio.
A lógica do encontro é oportunista no melhor sentido estratégico. Moscou precisa de cobertura econômica e diplomática chinesa para sustentar a guerra na Ucrânia, que entra em seu quarto ano consumindo recursos russos a uma velocidade insustentável sem apoio externo. Pequim precisa garantir que, se um dia tiver que confrontar os Estados Unidos no Pacífico, a Rússia não estará neutra ou, pior, alinhada com o Ocidente. A guerra do Irã ofereceu o pretexto perfeito: enquanto Washington gasta atenção e munição em Teerã, os dois governos formalizam o que antes era apenas conveniência tática.
O detalhe que importa para o resto do mundo é o que a declaração diz sobre a Ucrânia. O texto trata o conflito ucraniano não como um problema russo, mas como um teste do qual depende a credibilidade da ordem multipolar que os dois países dizem querer construir. Em termos práticos, isso significa que Pequim assume um papel mais ativo no financiamento e na blindagem econômica de Moscou. A neutralidade chinesa, que sempre foi uma ficção útil, agora foi formalmente aposentada.
Síntese
O fenômeno que uma as três frentes desta edição é a descoberta brutal de que o poder militar americano tem fundo. Por três décadas, a hegemonia dos Estados Unidos foi tratada como um dado quase metafísico, capaz de absorver qualquer choque sem perda de capacidade. A guerra do Irã desmontou essa ilusão em noventa dias.
A integração inédita com Israel não é sinal de força, é sinal de que nenhuma das duas potências consegue mais operar sozinha contra um adversário do porte iraniano. O alerta do CSIS sobre a falta de munições não é uma queixa técnica do Pentágono, é o reconhecimento público de que a base industrial americana não acompanha as ambições estratégicas do país. E a declaração de Putin e Xi não é diplomacia de rotina, é a leitura precisa, feita pelos rivais, de que existe agora uma janela aberta. As três histórias são medições do mesmo desgaste: o estoque finito de uma superpotência que se acostumou a agir como se fosse infinita.
Se esse padrão se consolidar, o mundo entra em uma fase em que o cálculo de risco das potências revisionistas muda de forma estrutural. Não se trata mais de saber se Washington responderá, mas com o quê, por quanto tempo e ao custo de abandonar qual outra frente. A ameaça iraniana de fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, é o vínculo material que mantém Washington atolado e oferece a Pequim e Moscou o tempo que eles precisam para reorganizar suas próprias zonas de influência antes que o estoque americano seja reposto.
Fontes
- The Iran war has showed extraordinary coordination between the U.S. and Israeli militaries. Listen to the latest episode of “Decision Points · Washington Institute [think tank]
- Nearly three months into the Iran war, no commodity is insulated from the conflict’s cascading supply chain effects. https://t.co/lBVcloTwip · Foreign Policy [imprensa]
- As Sudanese voices inside and outside the country continue to push for a resolution to Sudan’s war, attention has never felt further away, w · Foreign Policy [imprensa]
- The next round of Israel-Lebanon talks will have two agendas: Israel wants to focus on disarming Hezbollah, while Lebanon wants to “see when · Washington Institute [think tank]
- “The United States cannot leave the conventional rungs of the escalation ladder to Europeans, standing aside and merely promising to exercis · Foreign Affairs [imprensa]
- World Brief: A U.N. report blacklists Israel and Russia for sexual violence in conflict, Pakistan’s foreign minister visits Washington, and · Foreign Policy [imprensa]
- "The U.S. military would struggle to fight a protracted war with China because of a lack of long-range munitions, air defense systems and in · CSIS [think tank]
- “It is still in the U.S. national interest to find a diplomatic solution to the Iranian nuclear threat,” argue Matthew Sharp and Nate Swanso · Foreign Affairs [imprensa]
- On the latest episode of “The Foreign Affairs Interview,” @thantmyintu discusses how the United Nations can regain a meaningful role in prev · Foreign Affairs [imprensa]
- On the latest episode of “The Foreign Affairs Interview,” @thantmyintu discusses the past and future of the United Nations—and considers how · Foreign Affairs [imprensa]
- The United States’ reputation among Arab publics has plummeted since the start of the war in Gaza, write @AmaneyJamal and Michael Robbins. M · Foreign Affairs [imprensa]
- Lithuanian Foreign Minister @BudrysKestutis told FP that NATO will be better off in the long run because of Trump: “When we look back to thi · Foreign Policy [imprensa]
- The Putin-Xi joint statement is not merely a statement of bilateral friendship. It is a war-era manifesto. · The Diplomat [imprensa]
- Recently, Israel’s security discussions have taken a more aggressive turn. What’s behind this shift – and what does it mean for the future? · Carnegie Endowment [think tank]
- European citizens want Europe to be more powerful and more autonomous, not less. https://t.co/O7IAzP3kBW · Foreign Policy [imprensa]