A Índia acabou de ultrapassar a União Europeia no número de desenvolvedores de inteligência artificial, ficando em segundo lugar no mundo atrás apenas dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a ONU começou a negociar um acordo internacional sobre direitos autorais na era da IA e dessa vez não são só americanos e europeus à mesa. O deslocamento é simples de ver: o poder de definir como a tecnologia funciona está saindo do hemisfério norte e se fragmentando pelo mundo. Não se trata apenas de números. Tratase de quem escreve as regras.
Até pouco tempo, o debate sobre IA era uma conversa de dois: Silicon Valley versus Bruxelas. Os americanos lideravam a inovação e a indústria; a Europa tentava frear com regulação. Agora a Índia entra na sala com centenas de milhares de engenheiros, e países fora do eixo EUA-Europa começam a ter peso na negociação. A Organização Mundial de Propriedade Intelectual, vinculada à ONU, está montando um grupo de trabalho para discutir como a IA treina nos dados do mundo se respeita direitos autorais, quem controla o conhecimento, quem lucra. Esses temas nunca foram pensados com asiáticos, africanos e latino-americanos de verdade no comando.
A mudança não é só geopolítica; é econômica e política. Um desenvolvedor em Bangalore custa menos que um em Berlim e pode resolver problemas que a cultura americana nem vê. Quando a Índia tem peso suficiente no mercado de IA, tem voz nas regras. E regras sobre direitos autorais, dados e treinamento de modelos podem favorecer quem as escreve ou prejudicar quem fica de fora. É o mesmo jogo que marcou o domínio ocidental dos últimos séculos, mas dessa vez em reverso.
Por que importa: O Brasil não é produtor de IA de escala global hoje, mas depende dessa tecnologia cada vez mais desde chatbots até análise de risco de crédito nos bancos. Se as regras internacionais sobre como a IA usa dados forem escritas sem o Brasil na conversa, corremos o risco de ficar preso a padrões que não protegem nossa indústria, nossos dados ou nossos interesses. Além disso, se a Índia cresce como polo de talent em IA, a competição por engenheiros brasileiros qualificados tende a aumentar e nossos salários precisam acompanhar. Por enquanto, o Brasil está de fora dessa reconfiguração. Quanto tempo temos pra entrar?
